"Agora tu dizes que alguns se devoram? Comem de si mesmos? Se são iguais devem afastar-se, devem procurar aqueles do outro lado, conviver com o que tu chamas AMARGO, APARÊNCIA. Estilhaço do Todo, isso que me perguntas, fragmento do nada. Também busco."
Não é Literatura, nunca fui tão profundamente; é SÓ solidão. Eu giro esparramada madrugada adentro, eu grito também. E vou. Eu queria mais, mas - e sendo assim. Meu quarto está vazio porque estou deixando minha casa; meu corpo está vazio porque não reconheço mais as horas, o tempo que vai morrendo, adormecido - tantas marcas e.
Queria dizer apenas que não é Literatura; é tristeza. É solidão. É tudo aquilo que não estou para sentir, não vim a isso. Tiro os sapatos, o incômodo vem sempre dos pés - os meus, que não sabem nunca onde pisam, insuportavelmente cegos, minha única maneira de violentar-me - porque nada dói mais; não mais. O ódio transformando-se, aos poucos, em lucidez - a água que vira vinho e embriaga com requinte.
Letícia Hel às 13:04 [ ]
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[24.12.06]
E ainda posso sentir com a nitidez do instante o pulsar do teu sangue correndo; quero me alimentar desse pulsar agora que, ausente, prende-me em idéia fixa. E, se me concentro, lembro cores e sons e por um instante ouço tua voz, recordo - sinto - a vibração do som, minh´alma latente ávida de alimento e tua alma-canção singrando nos meus ouvidos e veias; sinto-me quase louca porque estou entregue ao absurdo dos sentidos. E é exatamente esse absurdo que ordena meu próximo passo - estou quase ao alcance. Estou delirante e mal posso compreender a clareza de minha própria lembrança, que, livre da antiga e enorme mancha negra, faísca minha sutil consciência de enredo: desfilo por teus limites.
Quase uma convulsão de alma, isso tudo. Tornei-me prolixa, reduntante e chata. Mas é que me desmereço se não escrevo e escrevo a ti como se aqui mesmo tu estivesses: me ouvindo - quando na verdade sou eu que(m).
É como nascer a cada lapso de pensamento meu que escapa - e me vem você; em intermináveis inícios: um remoinho de som em águas profundas.
Letícia Hel às 17:45 [ ]
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[10.12.06]
Nove de dezembro ou Outros timbres
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E eu agradeço.
Letícia Hel às 19:55 [ ]
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[3.12.06]
Amarelo
Minha exaustão inicia-se mesmo antes de. E se ainda nos resta essa (eterna) mania de sermos tão explícitos quando densos é porque não sabemos sentir de outra maneira, se sentimo-nos desde sempre tão profundamente e agora resta-nos apenas esse prenúncio de ausência doída é porque demorei tempo demais para partir. Agora antes que o trem parta, meu amor, sinta-se responsável por fazer com que permaneça fértil essa terra que abandono. Cuida p´ra que ninguém pise nesse chão antes de minha volta. Sei que posso falar-lhe em metáforas. Sei que posso confiar a primazia do meu encanto em tuas mãos revoltas. Tenho de partir porque nunca em vida acostumei-me às terras onde consigo chegar apenas com o limite do meu cansaço. Sei que compreende o meu silêncio e a escura angústia que vem assombrando meus dias, com ou sem ti. Sei que, se olhar mais profundamente, compreenderá o meu semblante radiante e cristalino de felicidade pura escondido ainda por trás das cortinas da minha covardia.
Você não tem a opção de escolher entre ir ou não comigo.
Você fica;
você sempre fica.
E fica em mim a medida errada de uma paixão escura como a terra.
Ouve bem porque só vou falar uma vez. Vou inundar sua casa com meu berro de silêncio e não tem como ser de outra forma porque escrever é falar dentro do silêncio. Um silêncio tão pesado que todo mundo vai ouvir, até os que estiverem com as portas fechadas e até os que estiverem trabalhando, na labuta se fudendo. É isso aí, vai anotando, porque como já te disse você devia anotar tudo que te falo: eu tô pouco me fudendo pros que estão trabalhando agora. Os peões das firmas, as crianças nas minas de carvão, as garotas perdendo a beleza e a vida nas lavouras de cana só pra gente poder se matar aos pouquinhos com esse pozinho branco e doce das nossas mesas. Eu não tô nem aí se tem gente passando fome ou se em algum lugar do oriente médio os direitos civis não estão sendo respeitados, porque na verdade eu quero que vá pro inferno os direitos civis, a polícia civil, a pessoa civil, a pessoa jurídica e todo mundo que tem algum tipo de problema. Eu demorei e você sabe disso, pra descobrir que uma dor de estômago em mim é mais importante do que acabar com toda a pobreza do mundo. Ainda ontem meu estômago doeu e doeu uma dor surda, uma dor seca que me fez duvidar da existência de deus. Nada pode expressar a dor que senti porque ela é transmitida numa linguagem que ninguém entende. Engraçado né? O mundo vive no meio da dor e no entanto ainda não aprendeu a linguagem da dor. É como escrever poesia para analfabetos, comparar rosas à uma espingarda ou querer ver castos fazendo sexo. É um tiro no deserto. É aquele maldito silêncio de novo. Ontem meu estômago doeu e a dor foi maior que a dor da mãe que perde o filho, maior que as pragas lançadas contra o Egito, maior que a fome das crianças africanas. Querida, me desculpa, mas essa era pra ser uma carta de amor. Ou pelo menos uma carta de despedida. Você sabe que não escolhi servir o exército. Fui escolhido. Mas a culpa foi sua ao me chamar pra jantar aqui porque só tem uma coisa que eu odeio mais do que minha família: a sua. Se eu me desviei das minhas intenções nessa carta, a culpa não é minha e nem sua e sim desse velho e dessa velha doente sentados na nossa frente com essa cara de estagnação e levando essa vida de merda de aposentado e de dona de casa e mesmo assim agindo como quem achou a verdadeira fórmula de como se viver para evitar frustações e problemas: simplesmente não viver. E pelo menos isso eles seguem a risca. Mas eu sei que foi a cara de tacho do seu pai que me fez lembrar da dor de ontem e agora que eu já fudi tudo eu só queria te dizer que ainda te amo mais que tudo nesse universo e que nosso amor é mais importante do que a saúde de todos os velhos doentes desse mundo onde a gente vive. Seu pai vai melhorar logo, não bati tão forte. Um beijo e espero te ver logo e bem longe da sua casa.
com carinho,
Ivan.
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Vou me internar.
Letícia Hel às 14:27 [ ]
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[23.11.06]
Dessa vez é sobre nós
Viu o sangue dele escorrendo pela perna, escorria vermelho e escorria quente: estava vivo, sim. Pediu que ele não limpasse o sangue, que deixasse escorrer transbordar manchar o corpo até que ela fosse lá e lambesse; mas alguém veio antes. Alguém veio antes e cuspiu na perna do rapaz, sobre o sangue, sobre o quente, sobre o gosto.
Alguém veio antes
e cuspiu no sangue
e estragou a história
que era p´ra ser SÓ deles.
Letícia Hel às 23:05 [ ]
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[22.11.06]
Isso não merece um título idiota
Não me peça nunca mais para levantar. Não sou daqui. E essa tua manina de questionar os inúmeros porquês, essas tuas tantas manias, meu bem: elas só te levam p´ra longe. Deixe-me ficar, eu gostei da casa, dos colchões, das cores, a empregada simpática; olha só, o cachorro nem latiu com a minha chegada, ele me entendeu muito mais do que você, isso mesmo, ele, o teu cão. Ainda não consegui definir o cheiro, sabes bem como me importo, há aqui um cheiro agridoce que vem das frestas, de início chega a arder os olhos, mas eu quero me adaptar. Tudo aqui me transmite uma talvez falsa noção de segurança mas eu preciso disso tanto e tão além de mim que essa é a primeira vez em quase cinco anos que consigo dormir tão bem num colchão que não é meu, num colchão onde certamente já deitaram-se umas dezenas de corpos e pela primeira vez não estou me importando com isso; repare nos tons de azul dessa cortina, ela comporta com exatidão todos os meus medos- porque através do vidro -, então não me peça nunca mais para levantar, não me indique a saída não abra o elevador a porta da sala da cozinha, deixe que eu me estenda sobre as horas antes que elas passem sem que eu consiga sentir o além do porquê das coisas. O que era reticência tornou-se infinito silencioso e minha antiga casa agora está repleta de fantasmas, tem um cara lá que morreu de tristeza, o outro se matou por ciúme; e quando chega a noite os dois choram seus tristes ais, agonizantes, acho até que é por isso que há tanto tempo não consigo dormir bem. Agora eu quero dormir, o dia já está claro, pode me trazer o café às dez? No pão integral, por favor, ainda não te contei que não como pão francês. Ainda não te contei muita coisa mas agora morando aqui na tua casa terei muito tempo p´ra contar e uma hora você vai enjoar de me ouvir e vai querer ir embora e vai largar tua casa teu cão tua empregada, mas tudo bem, eu gosto do lugar e não de você. Eu gosto de mim e você só gosta de mim também porque eu tenho muito respeito pelas ilusões alheias. É tanto desalento, eu sei. Eu vou cheirar cocaína no retrato da tua ex-mulher e com os olhos diáfanos vou encontrar fantasmas nessa casa também. É só uma questão de tempo.
Letícia Hel às 06:34 [ ]
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[20.11.06]
Faz muito calor no meu mundo
"Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada."
De repente paro, de repente esqueço que de nada adiantou abrir e fechar os olhos dezenas de vezes para que a imagem se guardasse, a imagem tua refletida nos vãos. Na última e única noite, na primeira de nenhuma outra, entre outras tantas incontáveis; quando? Horas vagas, vazias de sentido nos meus olhos, nos teus breus, na nossa eterna mania de deixar transparecer o impossível apenas nos primeiros quatorze segundos e nos últimos nove - segundos inteiros encharcados de intraduzível beleza e: o centro movendo-nos ao erro enquanto os primeiros sinais de luz do dia aspiram uma coisa qualquer de dentro de nós, coisa-importante que escapa então pelas frestas das portas e janelas deixando-nos - apenas - seu espectro e o vazio reticente.
* * *
Letícia contente com seu mundo.
Letícia Hel às 16:55 [ ]
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[15.11.06]
Cada vez menos
Um coração deslocando as palavras no tempo, é isso. Um coração batendo fraco num corpo fraco, nunca ileso. A cada novo encontro eu seco um pouco - cada vez mais. O corpo é outro e ainda as mesmas curvas, o mesmo gosto e. Eu vejo tanto e tão além que toda a tentativa toda a esquiva toda a aceitação todo o enredo é claro; e eu concordo que não há um despertar qualquer insigne em meus versos - não há mais versos, porque a palavra morre em mim a cada novo encontro.
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Aqui onde dói, sabe? Do lado esquerdo. Não, não do peito - do abdômen. Dói. Eu grito, aspessoas perguntam - É só dor? Não. É tão além. Faço cálculos assombrosos, tempo jogado fora, jogado fora? Perdido aqui dentro, do lado esquerdo de quem entra. É quase sempre depois das três: as pessoas saem - vai ficando cada vez mais vazio até que...até que...até que um dia, ninguém.
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A verdade estampada ardendo os meus olhos; as costas alheias determinando meus gestos; o sangue escorrendo por entre os meus dedos: cada vez mais distantes.
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E a resposta é:
Letícia Hel às 12:10 [ ]
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[14.11.06]
Conforto
Tudo errado dentro do meu peito. Grito morto, voz rouca prendida sufocada estática. Movimento claro, desprevenido, brusco. E mesmo que eu não tenha o direito de pedir isso - porque também bruscamente, num ímpeto, arranquei de ti, d´eles - eu só peço um pouco de paz, meu bem. Não essa paz que se compra com remédios, nem aquela que se compra ali na esquina sorrindo pro bêbado mais bêbado da rua mais escura às 03h29; não, não. Eu quero a paz que não existe em lugar algum - eu quero inexistir, meu bem. ["Meu bem" não existe também, é só um vilão disfarçado no meu relato - porque me conforta (...)] Quero inexistir em mais noites como esta, onde toda a sinergia transforma-se em conto e sonhos que ainda não vieram - e nunca virão.